
O Mercado e os Comerciantes
December 15, 2022
O Hábito de “ir ao Café”
December 15, 2022O Eduardo das Conquilhas a História de um Homem

Nas paredes, molduras e painéis de azulejos dão ao local um aspecto de museu vivo. Sem preocupação de ordenamento ou de qualquer explicação detalhada. Algumas com legenda simples. Outras nem isso, que os motivos são suficientemente esclarecedores.
Quem “der a volta” pelos quatro cantos das salas por onde se estende a cervejaria do Eduardo das Conquilhas” pouco lhe faltará para “dar a volta” pela vida do seu fundador.

Ali, num azulejo, cópia de uma foto antiga, “A Casa Onde o Eduardo Nasceu”. Paredes de granito, onde convivia a família, paredes-meias com as divisões das galinhas, das ovelhas e o curral do porco, aqui metido, em Janeiro, para a engorda, até à matança em Dezembro.
Depois, a divisão de mantimentos com a salgadeira, parte importante da casa, igual a tantas outras da paisagem
serrana, com a zona de habitação no piso superior e o “aquecimento” fornecido pelos animais, cujo calor se elevava do rés-do-chão através das tábuas irregulares do soalho.
Mais à frente, um quadro apresenta a foto de um pequeno pastor com as suas ovelhas e a legenda – “o Eduardo também foi pastor” marcando o orgulho dessa fase da vida. Logo mais, a data da fundação da casa – 10 de Janeiro de 1965 – e outras ainda com diversos aniversários: o 25.º, 35.º e o 40.º. Lembranças em azulejo ou em quadros emoldurados.
Também recortes de jornais com entrevistas dadas ou histórias contadas por frequentadores. Elogiosas sempre e comoventes também. Como o relato de um cliente, o escritor Miguel Esteves Cardoso, cujo Pai, dias antes de morrer,
pediu como último desejo que o levassem ao “Eduardo das Conquilhas”:
“A caminho do hospital onde viria a morrer três semanas depois, o meu Pai, apesar de mal conseguir respirar devido ao enorme edema pulmonar com que tinha acordado, perguntou as horas à minha Mãe aflita e, ouvindo que era
meio-dia, pediu-lhe um pequeno favor: que primeiro parassem para almoçar.


Ouviste o que disseram os médicos no hospital de Cascais…isto não é pêra doce. Eu sei lá quando é
que podemos outra vez ir almoçar os dois. Faz-me lá esta última vontade…
Minha Mãe, claro, cedeu, não sendo ela própria imune aos gestos dramáticos.
Pensou logo que o meu Pai queria ir a um restaurante dos melhores, já que, apesar de cuidadoso com
as despesas, acreditava que o dinheiro gasto com restaurantes (e livros) «não contava». Mas não.
– Vou surpreender-te, disse ele, arfando, mal conseguindo respirar. Sabes onde me apetece ir
almoçar?
– Não, não faço ideia, disse minha Mãe. Diz-me lá então o sítio onde queres ir almoçar?
– Era ao “Eduardo das Conquilhas”, uma antiga cervejaria popular na Parede.
Mal se sentou e foi servido o vinho, como sempre acontecia, rejuvenesceu.
Naquele último almoço no Eduardinho das Conquilhas que coisa se lembrou ele de pedir?
Meio quilo de gambas do Algarve, daquelas muito cor-de-rosa e esguias que despem a casca como
profissionais de striptease, e dois ovos estrelados.

Para quê? Pois para molhar as gambas na gema. Era esta a ideia dele que queria experimentar.
Uma coisa proibida, que é como quem diz, retumbantemente deliciosa.
Amante de peixe e nem por isso de marisco, manteve este secreto desejo que nesta hora final experimentou, ele que
proclamava que “os mariscos são bons é depois de serem comidos pelos peixes”.
O cheiro a marisco fresco é marca da casa.
Num aquário embutido na parede, lagostas e santolas aguardam a sua vez de visitarem a panela, enquanto a clientela amante da iguaria e da cerveja bem tirada ocupa mesas desalinhadas cobertas com toalhas de papel. E também sem o requinte de poder pagar a despesa com o dinheiro de plástico. Um aviso esclarecedor não deixa
dúvidas a ninguém:
“Não Temos Serviço de Cartões – Não Vendemos Tabaco”.
Duas formas de amealhar, preferindo empatar capital noutra mercadoria e guardando as percentagens a liquidar ao
banco pela forma de pagamento expedito.
Sem queixume dos clientes, habituados ao sistema.
Num texto do jornal “Ecos de Belém” pode
ler-se:
«…os tempos difíceis já lá vão. Serviram-lhe de livro para a vida, onde aprendeu a ser amigo e honesto com toda a gente. É com essa simplicidade que recebe as pessoas, clientes da sua casa há mais de trinta anos, a quem faz questão de chamar “os nossos amigos”.

O Eduardo das Conquilhas / História de um Homem
Eduardo das Conquilhas, de seu nome de registo Eduardo Santos, é o 6.º filho sobrevivo de uma família de nove irmãos.
Dos seis, Alzira, Maria, José, Abílio, Eduardo e Palmira, é o 5.º. Nascido a 30 de Abril de 1930, na aldeia de Moninho, situada a 4 km do concelho de Pampilhosa da Serra, no Distrito de Coimbra. Aos nove anos, perde o Pai. Sem recursos para o sustento, torna-se menino pastor na serra da Lousã.
Até aos onze anos, num isolamento injusto para tão pouca idade, sofreu na pele as agruras do clima e do desconforto, enrijando a alma e o corpo numa diária de sacrifício que aguentou sem queixume visível.
O desejo de poder viver melhores dias, ajuda-o a manter o ânimo.
Muda-se então para o serviço de um pequeno lavrador no lugar de Couratão, na aldeia de Ribeira de Celavisa, perto de Arganil, onde se sente um bafejado da sorte por poder dispor de um quarto para dormir. Pela primeira vez tem um lençol na cama. Aí se mantém até à idade de 15 anos, com a fé intacta numa mudança de vida.
Sua irmã mais velha, Alzira, casada com um estivador e a viver em Lisboa no Chafariz de Dentro, no bairro de Alfama, acolhe-o provisoriamente, oferecendo-lhe poiso para tentar a sorte na capital. Responde a anúncios, vai a entrevistas, calcorreia horas seguidas a cidade, mas apenas regressa a casa com as mãos cheias de promessas. Mãos cheias de nada que só uma vida de menino, calejado pelo sofrimento de muitos anos, o alimenta e lhe dá força para continuar. Vivia-se em Portugal o período pós guerra e as dificuldades eram gerais.


Três meses passaram, até que sua irmã lhe recomenda o retorno à Terra, impossibilitada de manter a despesa da sua hospedagem.
Regressar ao convívio dos conterrâneos sem mudança de vida à vista, era prova de fracasso a que não se queria sujeitar.
Feria a sua sensibilidade de jovem habituado a lutar, para quem a vida de cada dia era encarada como uma vitória no
caminho do sucesso. Sua irmã trouxe-o então a Carcavelos, numa viagem de comboio cujo preço do bilhete ainda recorda – 23 tostões (aproximadamente um cêntimo na moeda actual).
Um empregado na mercearia de Carlos André, com um irmão a trabalhar na Rebelva, arranja-lhe emprego por algum
tempo. Volta a conhecer o tempo de dormir no chão, amortecido por sacas de serapilheira.
Reconhecendo não ter condições para o manter, o patrão recomenda-o a um primo estabelecido em Oeiras, com
uma carvoaria no largo da Igreja, substituindo um irmão que fora chamado para o serviço militar. Fica encarregado da distribuição pela zona de Linda-a-Velha.
Aí se manteve durante três anos. Inicia a partir daqui o que se poderá considerar uma viragem da vida quando consegue trabalho na Parede, na mercearia “Ponto Azul” de Joaquim Tavares Lopes, com armazém de carvoaria
na rua Capitão Leitão e loja na Avenida da República. Era o ano de 1947.
Época do carvão e da lenha, combustíveis usados para aquecimento e para alimentar os fogões.
Do “Ponto Azul” recorda a tina à porta, com bacalhau demolhado pronto a ser cozinhado, que os serventes das obras iam comprar para a refeição dos operários, juntando-lhe as batatas cozidas em fogueiras acesas com restos de madeiras sem préstimo.
E também recorda António Russo, o colega que se ocupava da carroça na distribuição pelos clientes. A carvoaria de
Tavares Lopes é entretanto trespassada e no negócio, adquirido por dois sócios – Cipriano e Florindo – segue também o jovem Eduardo. Mas não só. A carroça de distribuição e o burro “Faísca”, um ex-líbris da Parede, mudam também de patrão.


Dedica-se então às entregas pelos clientes da terra. Eduardo vai abrindo horizontes em contactos diários com clientes, fazendo amigos e perseguindo um objectivo há muito ambicionado – ter o seu próprio negócio.
As gratificações que recebia guardava-as religiosamente com essa finalidade. Um dia abre-se-lhe a perspectiva de ingressar na Companhia Carris de Lisboa, através de um cliente a quem fazia entrega de garrafões de água e de vinho, na rua Machado Santos. Este cliente, da Administração da Companhia, facilitou-lhe o emprego.
Dois centímetros a menos do que a altura exigida para fazer parte do pessoal circulante – Eduardo media 1,62 metros – remeteu-o para o serviço de agulheiro.
Neste emprego se manteve cerca de três anos, com o secreto desejo de retornar ao comércio.
Um dia depara com um anúncio na porta do estabelecimento que hoje é seu: “Aluga-se”.
Contacta o senhorio e adianta-lhe dois meses de renda, mil trezentos e cinquenta escudos emprestados pelo seu antigo patrão Florindo.
Na impossibilidade de angariar o dinheiro para abrir o seu negócio, decide entregar a chave do estabelecimento, devolvendo também o empréstimo à custa de uma máquina de escrever que empenhou e que conseguiu mais tarde reaver.
Escondendo do senhorio a razão da desistência, inventa perante este que o motivo estava na sua decisão de procurar trabalho em África.


Entretanto, o espaço fora alugado a outro inquilino, Eduardo Costa Sequeira Júlio.
Mas não desiste e conseguindo novo empréstimo convence Sequeira Júlio a ceder-lhe a loja. Pagou quinze mil escudos de trespasse e ficou com o encargo de uma renda mensal de mil e quatrocentos escudos.
Um monte de “letras” aceites e mais tarde resgatadas, guarda-as Eduardo desde o primeiro dia. Sobre elas, na pasta de arquivo, um papel com um texto escrito por si, reza assim: “Tantos e tantos sacrifícios, e tantas e tantas privações se passaram, para pagar estas letras”.
Ao orgulho de nunca ter deixado de resgatar uma letra, junta-se a lembrança do tempo do serviço militar em que aprendeu as outras letras. Fez exame e na biblioteca do quartel devorou livros e criou o seu pequeno Dicionário de “palavras difíceis”.
Também recolheu ensinamentos de pensadores, como o francês Rousseau que cita de memória:
“Nunca te deixes vencer pela tristeza porque a tristeza não faz parte da vida. Muito embora haja lamentos, mostra-te sempre de bom humor com os outros mesmo que isso te exija grande força de vontade.”


O casamento com D. Margarida em 1967, na Igreja da Parede, pelo padre José Baptista, o Prior, pagou-o com um empréstimo de trinta e cinco mil escudos contraído junto do seu amigo e padrinho José Coelho Costa, que conhecera quando este lhe começou a fornecer café da firma Vilarinho e Sobrinho onde trabalhava. Eduardo guarda as letras resgatadas deste empréstimo e o papel com as contas feitas em que revela ter pago 15,7% de juros e encargos, quando os juros normais eram de 7 e 8%.
Numa vida de memórias e sacrifícios, mostra o seu reconhecimento a quem o ajudou, citando nomes em série de entre muitos que nele confiaram, fiando a mercadoria para o negócio, desde João Conceição Gomes, o João dos Tabacos, a José Coelho Costa que lhe permitiu estar dois anos sem pagar o café que lhe fornecia.
Esta pequena história de Eduardo Santos, necessariamente reduzida pela natureza e objectivo desta publicação, revela ainda um pormenor que merece realce. Seu sobrinho António, nascido em 1953, filho de seu irmão Abílio, veio trabalhar para a cervejaria com apenas 11 anos de idade. O tio tomou-o a seu cargo e junto deste estudou e fez os seus exames dos ciclos liceais.
Mais tarde empregou-se na Caixa Geral de Depósitos, onde ainda se mantém. Mas continua, dedicado e reconhecido ao tio, a dar a sua ajuda no serviço aos clientes como um dos empregados da casa.

Eduardo e D. Margarida tiveram dois filhos José, o mais velho, nascido em 1969 e Ricardo, oito anos mais novo. Este, tal como o sobrinho António, são esteios desta família.
Eduardo, numa confissão comovida, reconhece ter recebido de Ricardo a coragem para continuar lutando diariamente pelo sucesso após o destino lhe ter trazido o maior desgosto que um Pai pode sentir a perda de um filho.
Em 7 de Maio de 1992, vitimado por um brutal acidente de automóvel José, o Zézito como a ele se refere, fez mergulhar a família num luto que ainda hoje se mantém bem visível. É com o pensamento neste filho e em sua memória que Eduardo e D. Margarida encontram força para o trabalho.
E no ano em que o filho que perdeu completaria 40 anos, recorda-nos aquele dia 14 de Maio de 1992 em que mandara
celebrar uma Missa para comemorar os 25 anos do casamento com D. Margarida.
Nesse dia, e na mesma Missa, foi lembrada a memória do filho no 7.º dia da sua partida.
Em mais de um século de memórias da Parede não poderia ser esquecida a história de Eduardo dos Santos, o Eduardo das Conquilhas.
As suas origens, a sua persistência pela conquista de uma vida melhor e a amizade que tem distribuído nesta terra.

dos livros ” Parede a terra e a sua gente”
autor – José Pires de Lima


