Casa das Pedras
September 5, 2023Crônica 02 – “Janita Prescott”
October 10, 2023O Géninho, como sempre foi tratado pelos inúmeros amigos que soube granjear ao longo de mais de setenta anos de vivência na Parede foi um homem que marcou gerações desta terra, numa demonstração de desapego ao interesse
material que a vida lhe poderia ter proporcionado, se a ambição tivesse sido o seu objectivo de vida.
Possuidor de um enorme talento artístico, como pintor e decorador, deixou uma obra dispersa por centenas de clientes que a ele recorriam na sua oficina de restauro, desde longa data sediada na Calçada Engenheiro Miguel Pais, paredes meias com a rua da Escola Politécnica, em Lisboa.
Uma peculiar forma de encarar o dia-a-dia parecia movê-lo em sentido contrário ao dos ponteiros do relógio. Quanto mais apressados via à sua volta, mais a calma se apossava dele.
Quando para alguns o dia terminara já, para ele era a alvorada a dar os primeiros passos. E quando a estrada se enchia de gente, a começar manhã cedo nova jornada de trabalho, lá ia o Géninho, no meio da multidão, como se a noite anterior tivesse sido igual à de todos os outros.
Donde lhe viera essa singular forma de estar na vida, fosse a época de dificuldades ou fosse a mesma fértil em situações de maior acalmia?
Estará eventualmente na confiança nos seus dons e recursos naturais parte dessa força moral para ultrapassar dificuldades, mas virá certamente da sua infância de sofrimento contido, grande parte da coragem que manteve para superar os piores momentos da sua vida.

a um “abat-jour”, rodeado de outros modelos em fases diversas de acabamento

Seu Pai, experiente comandante da Marinha Mercante, numa das suas viagens pelos portos africanos, certamente cansado da vida nómada que o afastava constantemente da família, decidiu ficar nas ilhas Canárias e entregar o comando do navio, no regresso a Lisboa, ao seu oficial Imediato.
Com conhecimentos locais, optou por se dedicar à agricultura e ali assentar arraiais, nascidos já os dois filhos – Eurico, o mais velho e Eugénio o mais novo. Corria a década de 30 do século passado.
Certa noite, enquanto seus pais se encontravam numa qualquer cerimónia para a qual tinham sido convidados, Eugénio que ficara em casa, deu uma queda. Parecia acidente sem consequência de maior, mas o tempo iria demonstrar que lhe causaria danos graves e irreversíveis.
Começa tempos depois um calvário de sofrimento, com dores insuportáveis que levam a família, por altura de 1940, a regressar a Lisboa alojando num prédio da rua Óscar Monteiro Torres.
Conta Eugénio Calás:
“Fui habitar em Oeiras, em casa de um tio materno, o tio Eliseu, entregue aos cuidados de um médico, o Dr. Manaças. Por recomendação deste, entendeu a família que o local que poderia ser solução para a minha doença, então já declarada uma coxalgia ou tuberculose coxofemural, seria a Parede, onde eram conhecidas as melhorias nos pacientes de doenças ósseas e já célebre o médico que a elas dedicava toda a sua atenção, o Dr. Artur de Azevedo Rua.
Na casa térrea que alugáramos, localizada mais a Sul da Vila Gouveia, junto à estrada marginal, beneficiando do ar marítimo mais próximo da praia, a verdade é que em poucos dias as dores desapareceram, passei a alimentar-me com mais vontade e reconhecidamente a apresentar um estado clinico francamente melhor.”
Depois, foram três anos deitado num tabuleiro, uma característica cama sobre rodado que durante quarenta anos fez parte da paisagem desta terra, mais um entre centenas de doentes que durante décadas viveram na Parede, procurando no iodo da praia e nos benefícios do Sol o fim dos seus padecimentos.

Na primeira fotografia é a casa mais a Sul, sobre o lado esquerdo.
Na segunda fotografia, é o r/chão da primeira casa à direita.

dos livros ” Parede a terra e a sua gente”
autor – José Pires de Lima


