
Estrela da Manhã / Café Alfredo / Café Abreu
September 5, 2023Casa das Pedras
September 5, 2023Praia da Bafureira
O Jornal “O Século” de 2 de Setembro de 1930 informava:
Por causa de nevoeiro encalhou na Bafureira o vapor de pesca “Espadarte” tendo-se salvo a sua tripulação.
Na manhã de ontem um denso nevoeiro envolveu o estuário do Tejo e a barra, a ponto de não se divisar a orla das águas, na rebentação.
De vez em quando ouvia-se o silvo de um barco que demandava o porto e, pouco depois, tudo voltava à quietação de antes.

Nas praias, onde a afluência de banhistas é grande nesta quadra do ano, viam-se poucas pessoas a tomar banho, porque a agitação das águas, em grandes vagas, impedia que as mais tímidas e as que não sabem nadar se afoitassem.
Cerca das 11 horas, os banhistas que se encontravam na enseada da Bafureira, entre Parede e S. Pedro do Estoril, notaram que um prolongado e repetido silvo se ouvia, dando a impressão de um barco que pedisse socorro. Por momentos o silvo deixou de se ouvir, para se tornar mais vibrante e repetido à sua aproximação de terra.
Tornou-se também notado o silvo do Colégio da Bafureira, tendo a sua proprietária, Sr.ª D. Júlia Reis o pressentimento de que se tratava de um barco em perigo.
Comunicou então o que se passava para os Bombeiros Voluntários de Cascais, pedindo o envio do barco salva-vidas.
Entretanto, o nevoeiro ia-se dissipando e o Sol permitiu que se divisasse a situação do barco em perigo. De bordo faziam os tripulantes os mais desesperados esforços para manter o navio à flutuação procurando desviá-lo das rochas.
A esses esforços opunham-se as alterosas vagas que lambiam todo o convés do navio e o atiravam para as rochas.

Os esforços feitos para salvar a tripulação
Pelas 13 horas foi possível divisar de terra o nome do barco. Tratava-se do navio de pesca “Espadarte” da Sociedade de Pescas a vapor Espadarte Lda, com sede na rua da Madalena, em Lisboa.
Pouco depois, seriam 13 e 15, o Espadarte adornou a estibordo, dando a impressão de que se ia submergir. Essa situação tornou-se, porém, estável, por o barco ter encalhado nas rochas a pouco mais de 100 metros da costa.
Começaram então horas de ansiedade para os dezanove homens da tripulação que se viam numa situação aflitiva, dada a grande rebentação do mar.

Faziam os mais desesperados sinais para terra, em busca de uma salvação que se lhes antolhava difícil, e da praia apenas lhes podiam responder com sinais indicativos da posição das rochas.
Chegaram primeiro os Bombeiros Voluntários de Parede, com todo o seu material, mas os seus esforços foram impotentes por falta de material adequado ao salvamento de náufragos.
Lançaram-se então à água os senhores Luís da Veiga Pinto, Cláudio Azambuja Martins, Eduardo Gomes da Costa e Fernando Silva, que se dirigiram para bordo do “Espadarte” a fim de transportarem para terra um cabo que permitisse
estabelecer um vai-vem.
A luta entre as vagas e estes quatro homens foi seguida de terra com grande ansiedade, pois os arrojados nadadores eram obrigados a nadar em sentido oposto ao do barco encalhado, para que as ondas os atirassem para o local onde este se encontrava.
De bordo lançaram então um cabo que os nadadores trouxeram para terra, em luta com as ondas que cada vez se erguiam mais alterosas.
Ao aproximarem-se de terra, o nadador Fernando Silva, de 15 anos de idade, foi envolvido pelas ondas e os seus companheiros viram-se obrigados a largar o cabo para prestar socorro ao seu camarada que se encontrava em perigo de vida, trazendo-o para terra desfalecido.
Entretanto, comparecia também na Bafureira, o senhor Pedro de Alcântara Gonçalves banheiro e encarregado do posto de socorros a náufragos da Parede, que trazia consigo o material a seu cargo.

A maioria da tripulação foi salva no escaler de bordo.
Entretanto, o tripulante do “Espadarte” Francisco da Costa Trabucho, lançava-se à água trazendo preso à cintura um cabo que permitiria estabelecer o vai-vem. Os seus esforços, desesperados por vezes, não chegaram a ser utilizados
porque o mar retardou a sua chegada a terra.
A seguir os tripulantes Manuel Alberto Júnior e Abel de Brito tomaram lugar num dos escaleres de bordo e remando desesperadamente, conseguiram alcançar terra. Foi então utilizado um cabo de vai-vem estabelecido pelos Bombeiros Voluntários de Carcavelos, entretanto também no local.

Como o mar amainasse um pouco, o serviço de salvamento passou a ser feito num escaler, vindo para terra os tripulantes e tendo ficado a bordo, por não quererem abandonar o navio, o comandante Sr. Manuel Martins Lopes e o
primeiro maquinista António Trabucho, tendo este abandonado pouco depois o navio.
Às 22 horas, esgotadas as possibilidades de salvamento do “Espadarte”, por ter passado a preia-mar, o comandante Martins Lopes abandonou o navio.
Diariamente, o jornal “O Século” fazia o ponto da situação do navio. Foi assim na edição do dia 3 de Setembro em que anuncia que o navio “Patrão Lopes” sob o comando do comandante Amor Monteiro de Barros se mantinha na área do encalhe.
Refere ainda que o “Espadarte” saíra de Lisboa a 17 de Agosto para a pesca do alto, tendo pairado por alturas do Cabo Juby.
Depois de ter a bordo 32 toneladas de peixe regressou ao Tejo. O nevoeiro no Cabo Espichel precipitou o encalhe.
O “Espadarte” é um navio de 250 toneladas, construído em 1905 nos estaleiros de Glasgow. Está avaliado em 1.200
contos estando segurado por 800 contos.
A 4 de Setembro, o navio continuava encalhado e os socorros, perante a situação, iniciavam a retirada. No local mantinha-se o navio “Patrão Lopes” e o rebocador “Cabo da Roca”.
O comandante decidiu então retirar a bandeira do navio, sinal de abandono e consequente
entrega deste à Seguradora.
No entanto, a 6 de Setembro o “Espadarte” deu de si, o que permitiu pensar que poderia ser posto a flutuar por se ter libertado das rochas.
Efectivamente, no dia seguinte, pelas 14,30 horas, é posto a flutuar e rebocado para a Margueira pelos rebocadores “Foca” e “Garrett”. Por precaução ficou fundeado junto à praia de Pedrouços.
Na sequência das notícias publicadas, uma semana decorrida, o Século de 3.ª feira, dia 9 de Setembro de 1930, informava:
O “Espadarte” vai entrar na doca seca para sofrer reparações:
Encontra-se fundeado na Cova da Piedade o vapor de Pesca “Espadarte” que viera de Algés na madrugada de ante-ontem. Aquele barco está a flutuar não tendo sido necessário encalhá-lo na areia. A bordo, apenas uma bomba se conserva trabalhando no esgotamento da água.
Depois de ser descarregado do carvão, o “Espadarte” deve dar entrada na doca seca para reparações.

Largamente noticiada a acção abnegada de vários voluntários, de entre estes Cláudio Coutinho de Azambuja Martins, então com a idade de 18 anos incompletos, na tentativa de salvamento da tripulação do navio.
A este paredense foi posteriormente outorgada a Medalha de Cobre de Coragem, Abnegação e Humanidade do Instituto de Socorros a Náufragos.
O texto do louvor inserto no Diploma refere esta concessão por:
“Em 1 de Setembro de 1930, na Praia da Bafureira, se haver lançado ao mar a fim de tentar levar uma retenida de bordo do vapor «Espadarte» que se achava encalhado nas rochas e em perigo, a fim de estabelecer o cabo vai-vem para terra, não o conseguindo por ter de acudir a um seu companheiro que foi envolvido pelas ondas, tendo de largar o cabo para lhe prestar socorro.”
Cláudio de Azambuja Martins foi atleta do Parede Futebol Clube na modalidade de futebol. Pelos serviços prestados a este clube a sua Direcção endereçou-lhe um ofício de agradecimento com data de 27 de Julho de 1933, antecedendo a sua partida para África, onde permaneceu vários anos.
Fica o registo da sua acção e o direito a figurar a memória da gente desta terra.


dos livros ” Parede a terra e a sua gente”
autor – José Pires de Lima


