
O encalhe do Navio de Pesca “Espadarte”
September 5, 2023
Eugénio Jorge Eliseu de Miranda Calás
September 5, 2023Um ex-Líbris centenário mandada construir em 1903, pelo Capitão-de-Mar-e-Guerra Manuel de Azevedo Gomes
A Casa das Pedras

Desde o início do projecto do livro – “Parede, a terra e a sua gente” – foi objectivo fixado a procura de informações acerca do património arquitectónico da terra, um valor ainda relativamente bem preservado, não obstante a implacável acção do camartelo ter dado “asas” à construção desenfreada e geradora de obras novas, por vezes de gosto bastante duvidoso.
No agora mais intricado labirinto de ruas e prédios de maior envergadura, ainda se vislumbra um grande número de moradias, centenárias muita delas, que mantêm a traça original, ainda que a sua propriedade tenha saído da alçada de familiares dos seus primitivos construtores.
Estes baluartes da terra, que lhe conferem uma dignidade bem visível, estão, regra geral, associados a famílias com “História”, algumas protagonistas de episódios desconhecidos para muitos dos paredenses actuais, e que somente uma pesquisa persistente permitiu conhecer, trazendo para o presente memórias há muito esquecidas.
Numa sequência sem preocupação exagerada de respeitar qualquer cronologia, neste capítulo dedicado a estas moradias com o título de “Edifícios da nossa História”, dão-se a conhecer documentos originais que permitiram a sua construção, os primitivos proprietários, as famílias que neles habitaram e eventuais indicações sobre actuais moradores.
Porque “Parede, a terra e a sua gente” aponta com especial cuidado para a “sua gente”, é neste capítulo que se fazem referências a muitas famílias com grande número de filhos e cujas casas de habitação, por esse facto, passaram também a merecer a entrada nos “Edifícios da nossa História”. Estas famílias foram, ao longo da História da Parede, um factor importante de ligação entre a sua gente, pelo facto de irmãos mais velhos sendo de gerações diferentes dos mais novos, terem contribuído para cimentar uma das características da terra – a amizade.


Manuel de Azevedo Gomes, oficial da Marinha de Guerra, nascido na freguesia de São Roque da ilha açoriana do Pico, no dia 19 de Outubro de 1847, primeiro proprietário do ex-líbris da Parede, a Casa das Pedras, deve eventualmente a sua vinda para esta terra por influência de um seu camarada, também oficial de Marinha, o vice-almirante José Nunes da Matta.
Poder-se-à considerar que foi mais uma consequência da amizade mantida entre eles desde que Azevedo Gomes, ao tempo aluno na Escola Naval, incentivara Nunes da Matta, em 1868, a matricular-se no curso de oficial de Marinha, após este ter terminado o 1.º ano da Escola Politécnica de Lisboa, perspectivando cursar engenharia civil.
No capítulo deste livro dedicado ao vice- -almirante José Nunes da Matta, faz-se referência à contribuição deste oficial para o desenvolvimento urbanístico da Parede, sendo também “responsável” pela vinda para esta terra de dois camaradas marinheiros, Manuel de Azevedo Gomes, seu afilhado de casamento e Vicente Maria de Moura Coutinho de Almeida D’Eça, que adquiriram terrenos e neles fizeram construir duas das primeiras casas de veraneio aqui implantadas.
Manuel de Azevedo Gomes que casara em 1883 com D. Alice Fredericke Hensler, filha de D. Elise Hensler, condessa d’Edla, vira sua sogra construir, a pouca distância do seu terreno, um “Challet” apalaçado, a Casa da Condessa d’Edla. Contratando o mesmo arquitecto, o italiano Nicola Bigaglia, acordou com este a construção de uma moradia no seu terreno sobranceiro ao mar, pretendendo que no revestimento exterior das suas paredes e de todos os muros
circundantes, fossem utilizadas pedras retiradas das praias próximas (seixos marítimos), evitando deste modo custos posteriores de manutenção.



Nicola Bigaglia nasceu na cidade de Veneza no ano de 1841 sendo convidado pelo governo português para ensinar nas novas escolas industriais, nomeadamente na Escola Afonso Domingues, em Lisboa, na década de 90 do século XIX.
Bom desenhador, também aguarelista e modelador, impôs um estilo próprio para a construção, sendo solicitado para projectar e dirigir alguns dos emblemáticos edifícios que naquela época foram erigidos em Portugal. São da sua autoria, de entre outros, em Lisboa, o palácio do Marquês Vale-Flor, na rua Jau, o edifício que pertenceu a Lima Mayer na rua do Salitre (actualmente pertença da embaixada de Espanha) e um edifício encomendado por Michelangelo Lambertini, na avenida da Liberdade. Em 1901 assina o projecto do “Challet” da condessa d’Edla, e dois anos depois inicia a construção da “Casa das Pedras” destinada a habitação do comandante Manuel de Azevedo Gomes, ambas na Parede.








Nascido na ilha do Pico, Açores, em 19 de Outubro de 1847, viria a falecer na sua “Casa das Pedras”, na Parede, em 14 de Julho de 1907. Oriundo de uma família açoriana de sete irmãos, era filho de António Ávila Gomes e de Maria José de Azevedo e Castro.
Em 1-6-1867 assentou praça na Armada, sendo promovido a Guarda-Marinha em 1-10-1870 e, neste posto, assumiu pela primeira vez o comando de um navio, a corveta “Estefânia”, embora interinamente. Foi chefe de gabinete do ministro Jacinto Cândido da Silva, também açoriano, quando o Estado decidiu criar, em 1896, um programa considerado o maior investimento realizado na Marinha nos séculos XIX e XX.
Do seu curriculum consta a chefia da missão da Armada aos estaleiros do Havre, para a recepção dos cruzadores “São
Rafael” e “São Gabriel”, incluídos no plano de expansão naval de Jacinto Cândido.
O comandante Manuel de Azevedo Gomes foi ajudante honorário do rei D. Carlos I, quando este monarca, em 1901, visitou os Açores.
No seu percurso naval foi também comandante do cruzador “São Gabriel” e teve a satisfação de lhe ser entregue o comando da mais prestigiada unidade naval da época, o cruzador “D. Carlos I”. Chefiou, em 1902, a Divisão Naval do Oceano Índico e no final da sua carreira, em 1906, foi Director da Escola Prática de Torpedos e Electricidade.
Vários louvores e condecorações constam da sua folha de serviço, sendo grande oficial da Ordem de São Bento de Avis (1892) e comendador da Ordem da Torre e Espada (1893)

(1858-1909)
Corveta mista construída em Inglaterra e lançada à água em 1858. Deslocava 2368 toneladas, media 61.72 metros de comprimento e uma guarnição de 180 homens. Esteve em Angola, na América do Sul e na Índia. Em 1871 foi designada para transportar o rei D. Luís a Inglaterra. Foi ainda quartel da Escola de Alunos Marinheiros em Faro, e base da Escola de Alunos Marinheiros do Norte. Em 22-12-1909 partiu-se a sua amarração nas cheias do rio Douro e o navio perdeu-se após encalhe ao Norte do farolim de Felgueiras. Foi abatida ao efectivo dos navios da Armada em 30-12-1909.
Foi sucessivamente promovido a 2.º tenente em 4-11-1873, a 1.º tenente em 24-8-1882, a capitão-tenente em 25-7-1889, a capitão de fragata em 26-10-1895 e a capitão-de-mar-e- -guerra em 30-12-1901.
Refira-se da notável folha de serviços, uma actividade operacional assinalável que levou Manuel Azevedo Gomes, no período entre o posto de guarda-marinha e o de 1.º tenente, a embarcar sucessivamente nos seguintes navios: corveta “Estefânia”, fragata “D. Fernando II e Glória”, canhoneira “Rio Guadiana”, escuna “Napier”, corveta “Infante D. Henrique”,
corveta “Duque da Terceira”, barca “Martinho de Melo”, corveta “Bartolomeu Dias” e canhoneira “Tejo”.
Ainda neste período efectuou comissões em Angola, Cabo Verde, Guiné, Macau e Açores.
No posto de capitão-tenente comandou sucessivamente a barca “Cabinda”, a canhoneira “Diu”, o brigue “Pedro Nunes”, a corveta “Duque da Terceira”, foi também comandante da Estação Naval de Macau e capitão do Porto da Nazaré (1995). De 24 de Junho a 14 de Julho de 1893 serviu em Timor.
Em 20 de Maio de 1996 foi nomeado Comissário Régio junto da Companhia de Moçamedes.

(1864-1911)
Construída no Arsenal de Lisboa foi entregue à Armada em 1864, mantendo-se no activo até 1911.
Deslocava 1429 toneladas e tinha o comprimento de 54,86 metros. Constituíam a sua guarnição 224 homens

Era a antiga corveta inglesa H.M.S.Hawk, que foi lançada à água em 1863 e adquirida pela Armada em 1869.
Esteve ao serviço activo até à data do seu abate em 1880. Tinha um deslocamento de 1011 toneladas, o
comprimento de 52 metros e navegava a uma velocidade de 11 nós com uma máquina a vapor de 200 hp.
Tinha uma guarnição de 198 homens

(1858-1905)
A Corveta mista “Bartolomeu Dias” foi lançada à água em 2-1-1858, em Blackwall, no Tamisa. Deslocava 2377 toneladas, tinha 63.1 metros de comprimento e uma guarnição de 300 elementos. Entre Junho de 1858 e Novembro de 1861 o navio foi comandado pelo infante D. Luís, capitão de fragata e irmão do rei D. Pedro V. Fez diversas viagens a Inglaterra, Marrocos, Madeira e Angola, navegou no Mediterrâneo e participou nas campanhas de Moçambique. Foi escolhido para servir de tribunal aos revoltosos do 31 de Janeiro de 1891, na cidade do Porto. Foi abatida ao efectivo dos navios da Armada em 1905.

(1843-1963)
Fragata e posteriormente Navio Escola, foi projectada na Sala do Risco da Ribeira das Naus e começada a construir na
Carreira de Damão, no Estado da Índia, sendo lançada à água em 22-10-1843. Deslocava 1849 toneladas e media 48.77 metros de comprimento. Em 2-2-1845 saiu de Goa para a sua primeira viagem a Lisboa. Navegou durante 33 anos tendo efectuado diversas viagens para a Índia, Moçambique e Angola. Em 1878 fundeou no Tejo de onde não mais saiu. Foi sede da Escola de Artilharia Naval e navio-chefe das Forças Navais no Tejo. Em 3-4-1963 quando fundeada no Mar da Palha, ficou praticamente destruída por um incêndio. Foi recuperada entre os anos de 1992 e 1998, tornando-se um ex-líbris da memória naval portuguesa e museu flutuante sediado em Lisboa.
Ao aproximar-se o período final de serviço activo na Marinha de Guerra, o comandante Manuel de Azevedo Gomes seria ainda nomeado comandante do cruzador “S. Gabriel”, cargo que assumiu sendo capitão-de-fragata, em 10 de Setembro de 1900. Foi exonerado em 24 de Abril de 1902.
Não terminaria, no entanto, a sua vida operacional sem nova nomeação, agora para o comando do mais importante navio da Armada, o cruzador “D. Carlos I”. Tomou posse em 26 de Março de 1903 e terminou a missão em 21 de Fevereiro de 1906.
O cruzador “D. Carlos I” teve como primeiro oficial exercendo o seu comando, o capitão-de-mar-e-guerra Guilherme Augusto de Brito Capello (1) desde 6-7-1899, seguido do capitão-de-mar-e-guerra Cipriano Lopes de Andrade (29-3-1900) e do capitão-de-mar-e-guerra Luís António de Moraes e Sousa (9-7-1900). O capitão-de-mar-e-guerra Manuel de Azevedo Gomes foi o quarto oficial neste cargo.
Após a implantação da República em 1910, o cruzador “D. Carlos I” alterou o nome para “Almirante Reis”, homenageando um dos revolucionários do 5 de Outubro.
(1) Guilherme Augusto de Brito Capello era irmão de outro oficial de Marinha, Hermenegildo de Brito Capello, o qual estabeleceu por terra, juntamente com Roberto Ivens, a ligação entre Angola e Moçambique, na célebre expedição “de Angola à contra costa”, origem do mapa cor-de-rosa e posterior causa do ultimato da Inglaterra a Portugal, em 11 de Janeiro de 1890.

(1900-1925)
Navio construído no Havre pela Sociedade Anónima Forges et Chantiers, em 7-5-1898 foi lançado à água e aumentado ao efectivo dos navios da Armada em 18-10-1900, juntamente com seu irmão gémeo, o cruzador “São Rafael”. Custou 570.000 escudos. Deslocava 1838 toneladas, media 75 metros de comprimento e atingia uma velocidade máxima de 17 nós. Tinha uma guarnição de 248 homens (13 oficiais, 23 sargentos e 212 praças). Esteve em Angola, em Moçambique, servindo na Divisão Naval do Índico e na Índia., em Timor e nos Estados Unidos da América. Efectuou uma viagem de circum-navegação entre Dezembro de 1909 e Abril de 1911. Depois de uma nova nomeação para comissão em Moçambique, em 1918, regressou a Lisboa em 1919 e passou ao estado de desarmamento em 1922. Foi abatido ao efectivo, em 22-1-1925.

(1898-1910)
Navio construído em Newcastle, foi lançado à água em 5-5-1898. Entrou em Lisboa em 20-7-1899.
Em 9-4-1900 largou para o Brasil para tomar parte nas comemorações do 4.º centenário da sua descoberta. Neste navio realizaram-se as primeiras experiências radiotelegráficas efectuadas em Portugal em 1902. Deslocava 4253 toneladas, media 110 metros de comprimento, tinha de calado 5.33 metros e atingia a velocidade máxima de 22 nós. Formavam a sua guarnição 442 homens (20 oficiais, 46 sargentos e 376 praças). Em 1910 alterou o nome para “Almirante Reis”. Foi abatido ao efectivo em 22-1-1925

Do casamento do comandante Manuel de Azevedo Gomes com Alice Hensler, em 30-9- 1883, nasceram três filhos:
Alda Hensler de Azevedo Gomes, nascida em 14-8-1884 em Angra do Heroísmo, casada em 30-8-1908 com Ernesto de Campos de Andrada; Mário de Azevedo Gomes, nascido em 22-12-1885 na Casa das Pedras, na Parede, casado em
7-8-1918 com Cristina Leopoldina Sousa de Meneses Marcellin Chambica e Isabel Maria Hensler de Azevedo Gomes, nascida em 1-6-1889 e casada em 28-3-1912 com seu primo direito, Alberto de Mello Azevedo Gomes, filho do capitão-de-mar-e-guerra Amaro Justiniano de Azevedo Gomes (irmão do comandante Manuel de Azevedo Gomes).
Licenciado em engenharia agronómica no ano do falecimento de seu pai, em 1907, o professor Mário de Azevedo Gomes foi brilhante investigador na área da silvicultura e docente universitário no Instituto Superior de Agronomia de Lisboa, entre os anos de 1914 e 1946. Demitido das suas funções neste ano, por motivo da sua oposição política ao governo de Salazar, viria a ser readmitido em 1951. Em 1955 jubilou-se tendo falecido em 12 de Dezembro de 1965, em Lisboa.
O seu nome ficou ligado à fundação da Estação Nacional Agrícola, de que foi seu primeiro director, tendo dirigido o programa de extensão rural denominado “Instrução Agrícola” entre os anos de 1919 e 1925.
Entre 1923 e 1924, no período de dois meses, fez parte do ministério de Álvaro Xavier de Castro, sobraçando a pasta da Agricultura.
A Monografia do Parque da Pena em Sintra é um dos seus mais notáveis trabalhos, mantendo-se desde a sua publicação, no final da década de 50 do século XX, como uma obra de consulta e estudo obrigatório, sendo ainda considerada a principal fonte de informação para os estudiosos daquele parque.
Da sua paixão pelo Parque da Pena, tanto no aspecto sentimental como científico, resultaram importantes estudos que o professor Azevedo Gomes deixou publicados como contributo para o seu conhecimento:
Em 1957 dá a conhecer o título: “A importância das precipitações devidas ao nevoeiro em regiões costeiras arborizadas; estudo do clima local realizado no Parque da Pena, Sintra”; em 1959, publica “Algumas árvores notáveis do Parque da Pena”; em 1960, “Monografia do Parque da Pena – Estudo dendrológico – florestal” e em 1962, “Novas gerações híbridas de Abetos no Parque da Pena”.
Em 7 de Agosto de 1918 o Professor Azevedo Gomes casou em Sintra com D. Cristina Leopoldina Sousa de Menezes Marcellin Chambica (1891-1982) com quem teve 7 filhos, cinco raparigas e dois rapazes, seguindo estes dois a mesma inclinação agronómica do pai.

Este ramo Azevedo Gomes viria a ser o proprietário e habitante da “Casa” até à actualidade.
1 – D. Cristina Leopoldina Sousa de Menezes Marcellin Chambica (n.1891)
2 – Maria do Carmo (n.1922), 3 – Professor Mário de Azevedo Gomes (n.1885),
4 – Fernanda Benedita, 5 – António Manuel (n.1925)
6 – Rosa Maria (n.1928), 7 – João Paulo (n.1927)
8 – Ana Maria (n.1919)
(Na fotografia falta uma filha, Maria Paula, falecida em 1925 com a idade de um ano)
Dos 3 filhos do comandante Manuel de Azevedo Gomes, a mais velha, Alda Hensler de Azevedo Gomes, nascida em 14 de Agosto de 1884 e casada em 31 de Agosto de 1908 com Ernesto de Campos de Andrada (n. 24-9-1882), adoptaria a Casa da Quinta da Condessa d’Edla, sua avó, como morada permanente da sua numerosa descendência.
dos livros ” Parede a terra e a sua gente”
autor – José Pires de Lima
