
O Hábito de “ir ao Café”
December 15, 2022
Campo de Tiro
December 15, 2022de Agostinho Rodrigues e Dª. Alexandrina Rodrigues
Quando a Pensão Portugal fechou as suas portas, a Parede deixou de ter uma unidade hoteleira com oferta
de alojamento. Nenhuma outra entidade, depois disso, tomou a iniciativa de manter essa tradição.
Durante muitos anos ela foi o apoio dos veraneantes em busca do benefício das suas praias e do seu Sol, a preços
ao alcance de bolsas mais limitadas.
O reconhecimento desta realidade, é razão suficiente para trazer à memória dos paredenses a figura de
Agostinho Rodrigues, um homem de coragem e de saber da sua arte, que nesta terra soube envolver toda a sua
família, garantindo, através de seu genro Manuel Lourenço, a continuidade para além do seu tempo.
E deste ambiente familiar, são muitos os testemunhos de quem naquela casa conviveu, considerando-a um dos
locais com grande responsabilidade no fortalecimento dos laços de amizade que esta terra, desde sempre, soube
manter e alimentar.



Agostinho Rodrigues e Dª. Alexandrina Rodrigues com as três filhas, Maria da Glória,
Alzira e Beatriz (sem esquecer o cão da família, o Pirolito)
Agostinho Rodrigues nasceu na aldeia de Maceirinha, do concelho de Seia, distrito da Guarda, sendo oriundo de uma família de vários irmãos.
Em 1928 veio para a Parede, dando continuidade à sua actividade, tendo ganho fama na divulgação da sua arte, com raízes na escola francesa da época.
Envolvendo nesta profissão a mulher e as três filhas, Alzira, Maria da Glória e Beatriz, criou as bases seguras para uma continuidade da exploração que fundou, assegurando-a, alguns anos mais tarde, através do casamento da filha Maria da Glória com Manuel Lourenço, que fora ajudante de cozinheiro junto de seu futuro sogro. Joaquim, único filho
do fundador, teve uma vida profissional dedicada ao negócio do mobiliário.

Esta rua denominou-se “Heliodoro Salgado” até 1938, quando por deliberação camarária de 7 de Janeiro foi decidida a alteração toponímica
Hotel Luso-Italiano em 1928, Pensão Luso-Italiana em 1934, Pensão Lusitânia depois de 1937 e Pensão Portugal em 1941, foram as diversas designações desta unidade hoteleira, após Agostinho Rodrigues ter decidido estabelecer-se em Parede.
Beneficiando de uma redução de impostos a pagar, promoveu alteração da classificação de “Hotel” para “Pensão” sem modificação, no entanto, do nível do serviço prestado.

unidade foi alterado pela primeira vez, passado de “Hotel” para “Pensão”
Recuemos ao período entre as datas de 1928 e 1941, apresentando alguns curiosos documentos
oficiais que nos dão uma imagem da burocracia exigida a quem explorava a indústria
hoteleira, embora de dimensão pequena.
Numa circular da Câmara Municipal de Cascais, datada de 24 de Dezembro de 1937, enviada
ao Ex.mo. Senhor Agostinho Rodrigues, proprietário da Pensão Luso-Italiana, lê-se:
“Nos termos do art.º 610 do decreto n.º 27.424 de 21 de Dezembro de 1936, na parte que a V. Exa.
diz respeito, se comunica que por esta Câmara foi aprovado em sua sessão de 3 do corrente mês que
a começar no dia 1 de Janeiro de 1938 sejam cobradas as taxas de 3% – 1,5% e 0,75%,
1-Sobre o total das contas pagas nos hotéis, pensões, hospedarias, casas de hóspedes, restaurantes,
sanatórios e casas de repouso, quando a diária seja superior a 10$00.
2-Sobre as despesas feitas nos referidos estabelecimentos cuja liquidação se não faça por diária.
3-Se os hóspedes ou comensais permanecerem ininterruptamente nos estabelecimentos a que se refere
o art. 610, excepto os sanatórios e casas de repouso, por mais de trinta dias, ser-lhes-á liquidado
o imposto por metade da taxa no segundo período de trinta dias, e pela quarta parte no período
que exceder os sessenta dias.
4-As famílias compostas de quatro ou mais pessoas, exceptuados
os serviçais, beneficiam da redução de 20% ao imposto, sem prejuízo
do preceituado no & anterior.
E mais adiante esta circular informa:
Nestas condições, os responsáveis pela arrecadação do imposto, deverão adicionar ao total do imposto cobrado, no livro respectivo, para efeitos de liquidação, a percentagem de 3,03% sobre este imposto, correspondente à taxa do art.º 59.º da Tabela do Imposto do Selo.

Das três filhas, apenas a do meio, Maria da Glória contraiu matrimónio. Foi seu marido Manuel Lourenço, inicialmente ajudante de cozinheiro junto de seu futuro sogro, assumindo mais tarde a exploração da Pensão Portugal.
Casado em 1936, deste casamento nasceram quatro filhos: Carlos Manuel, Fernando Alberto, José Manuel e Heitor Manuel.
Agostinho Rodrigues passou a gerência a seu genro, na década de 40, com cerca de 70 anos de idade, falecendo em 1945. A partir desta data, Manuel Lourenço com grande espírito sociável, levou à Pensão Portugal várias comemorações e homenagens, como testemunham algumas fotografias que recordam esses momentos.

Á sua direita Humberto Santos Ribeiro que foi regedor de Parede.
À sua esquerda (?), Manuel Dinis da Costa e José Manuel Amaro Gonçalves Correia

Jantar de despedida do locutor Jorge Alves, do Rádio Clube Português, antecedendo a sua partida para os Estados Unidos da América onde foi trabalhar na emissora NBC
Reconhecem-se:
1– Jorge Alves; 2– Júlio Oliveira; 3– Heitor Ramalho Quintas; 4– Carlos Rodrigues Lourenço
5– Ernesto Eugénio Carvalho Leitão; 6– Fernando Arnault; 7– Manuel Sá Esteves; 8– Carlos Aleixo Neves;
9– Sr.ª. Macieira, 10-Macieira

1– Fernando Branco; 2– Wenceslau Balseiro Guerra; 3– José Afonso Percheiro; 4– Alcides Estêvão de Oliveira

O jantar de boas-vindas ao Padre José Baptista da Silva , após a sua entrada em Parede, como seu primeiro Prior
depois da criação da Paróquia. À sua esquerda, o Presidente da Junta de Freguesia, Wenceslau Balseiro Guerra,
António Balseiro Guerra e João Martins

1– Armindo Quirino dos Santos; 2– António Paulo dos Santos (Canhoto) ; 3– Ramiro Januário Modesto;
4– Artur Eusébio; 5– Victor Loureiro; 6– Leonardo Nobre; 7– Rui Meco; 8– Eduardo Pires; 9- ; 10– Jorge Ribeiro;
11– José Costeira; 12– Francisco Matos (Ceroulas); 13– Gonçalves; 14- António Oliveira Mendrico; 15- Santos;
16– Duarte Mota (Farmácias)
Nota: As taças expostas sobre o aparador, são troféus alcançados por Manuel Lourenço na sua actividade de columbófilo amador

Casamento de Manuel Dinis da Costa e Dolores
1- ; 2– José Martins; 3- ; 4– José da Costa (Pai de 17); 5- ; 6– Augusto Osório Pereira; 7- ; 8– João Coelho;
9- José Manuel Rodrigues Lourenço; 10– Heitor Manuel Rodrigues Lourenço; 11– Albino Fernandes;
12– Humberto dos Santos Ribeiro (Regedor de Parede); 13– Manuel Lourenço; 14– Francisco (Chico Labaredas); 15–
Chefe Gonçalves (PSP); 16– Dolores; 17– Manuel Dinis da Costa; 18– José Granejo (filho);
19– José Manuel Amaro Gonçalves Correia ; 20– Américo; 21– José Manuel Martins de Lima;
22– José Granejo (Zé Polícia PSP); 23- ;

Em Pé:
José Martins
Manuel Dinis da Costa
Manuel Lourenço
José Manuel Amaro Gonçalves Correia
Humberto dos Santos Ribeiro
De joelhos:
Armando da Silva Faustino
Augusto Osório Pereira

A abertura da Pensão Portugal aos convívios frequentes, encontrou na qualidade do serviço e no ambiente de simpatia da família Lourenço a sua principal justificação.
Referimos a existência de inúmeros documentos fotográficos atestando esses encontros, quer em jantares de boas-vindas, jantares de despedida, comemorativos de aniversários das colectividades da terra ou casamentos.
Foi assim em 1944 na despedida do locutor do Rádio Clube Português, Jorge Alves, antecedendo a sua partida para os Estados Unidos da América, no cumprimento de um contrato na estação NBC daquele país; num almoço de amigos nos anos cinquenta; num encontro de dirigentes da Sociedade Musical União Paredense; no jantar de boas-vindas
ao Padre José Baptista da Silva em 1956, na sua entrada na Parede como seu primeiro Prior, após a criação da paróquia ou no casamento de Manuel Dinis da Costa e Dolores, em 1960.
Quando a Pensão Portugal fechou as suas portas, a Parede deixou de ter uma unidade hoteleira com oferta de alojamento. Nenhuma outra entidade tomou a iniciativa de manter essa tradição, que durante muitos anos facilitou a estadia de veraneantes necessitados do benefício das condições climáticas das suas praias e do seu Sol, a preços ao alcance de bolsas mais limitadas.
Agostinho Rodrigues e seu genro Manuel Lourenço, com apoio familiar incondicional, ficam na História de Parede como exemplo de homens de iniciativa e criadores de um ambiente de simpatia e de bem servirem a comunidade, de tal forma difíceis de igualar, que até aos dias de hoje ninguém mais os conseguiu imitar, nesta terra, na actividade que
aqui exerceram.
Vários documentos do arquivo da família de Agostinho Rodrigues e de seu genro que se apresentam, são curiosidades de um tempo de vida profissional da Pensão Portugal, dando uma imagem de memória para as gerações mais jovens, com alguma nostalgia para muitos que ainda recordam os dias em que frequentaram aquela casa.

Humberto Ribeiro(1), José Manuel Gonçalves Correia (2), Manuel Dinis da Costa (3), Augusto Osório Pereira (4), Fernando Dinis da Costa (5), Ricardo Gonçalves (6), Carlos Aleixo Neves (7), Carlos Magalhães (8), NN (9) e Francisco Noronha (10)
dos livros ” Parede a terra e a sua gente”
autor – José Pires de Lima


