
Vila Edith
December 15, 2022
Delmiro Ferreira de Oliveira
December 15, 2022
Existe algum desconhecimento acerca da origem da família de Elise Fredericke Hensler, a futura condessa d’Edla, nascida em 22 de Maio de 1836, segundo registos, na cidade Suiça de La-Chaux-de-Fonds, onde teria vivido até ao ano de 1838, altura em que emigrou para os Estados Unidos da América.
Não tem, no entanto, grande relevância o conhecimento rigoroso desse passado, considerando o objectivo principal do capítulo deste livro, vocacionado fundamentalmente para a divulgação da origem da casa e das famílias que nela habitaram.
Seu pai, Jean Conrad Hensler, de origem alemã, teria sido forçado a deixar a Alemanha por razões políticas. No entanto, e não obstante ser de origem nobre, exerceu na América, na cidade de Boston onde viveu, a profissão de alfaiate. Ali se revelou sua filha Elise uma predestinada para o canto lírico e em 1852, com apenas 16 anos de idade, o seu nome é anunciado como figura de cartaz numa ópera italiana representada num dos principais palcos da
cidade.
Esta estreia animou seu pai a apoiá-la na carreira, levando-a a Paris onde frequentou com sucesso o Conservatório, elevando os seus conhecimentos em contacto com os meios musicais da época.
Numa etapa seguinte vai para Itália e ali, com seu pai tornado seu orientador nesta actividade, vem a celebrar um contracto com “La Scala de Milão”. Porém, vê-se forçada a retornar aos Estados Unidos, por motivo de seu pai ter sido acometido de doença que o tornou incapaz de continuar a acompanhar o percurso da filha.

No regresso à América prosseguiu a sua carreira de êxitos e em 1856, ao completar 20 anos, munida de um passaporte americano, rumou de novo à Europa para uma digressão de sucesso nos palcos de Itália, da Suíça, da Áustria e de França.
Naquela época vivia-se na Europa um período de agitação política, com envolvimento da Itália em guerra contra a ocupação austríaca de alguns dos seus condados. É neste ambiente de política agitada e de deslocações continuas que Elise Fredericke Hensler, acompanhada de sua mãe, se apresentou na cidade do Porto, no ano de 1859, integrada numa companhia de ópera para uma série de actuações em Portugal. Do Porto passou para Lisboa, onde actuou no teatro de São Carlos.
Não foi bem aceite pela critica portuguesa, contrariamente ao que das suas actuações se escrevia na América e nas cidades europeias, segundo se dizia por desconhecimento dos críticos nacionais sobre o seu passado artístico.
No entanto, a sua actuação em Lisboa, no dia 15 de Abril de 1860 viria a provocar a viragem na vida da cantora. A sua interpretação despertara no rei D. Fernando II, viúvo de D. Maria II, presente na sala, um particular interesse, para além dos dotes artísticos demonstrados.
A partir desta data D. Fernando passou a ser visita assídua de Elise Hensler, na morada desta onde habitava com sua mãe, e também com a jovem Alice que a cantora apresentava como sua sobrinha. Reside aqui um total mistério relativamente a esta familiar, a quem mais tarde e já próximo do seu fim de vida, a condessa d’Edla viria a confessar não ser sua sobrinha e sim sua filha.
A adensar o mistério, o facto de se referir que Alice teria nascido no ano de 1855, quando Elise tinha 19 anos e se encontrava em plena actividade na Europa. A ser correcta a data de nascimento de Alice, ficaria desfeita a suspeita de que seria filha de D. Fernando, história que circulava, pois nessa data não tinha este entrado ainda no círculo de
relações da cantora.
Como atrás se disse, não tem grande relevância o conhecimento rigoroso desse passado.
Partiremos do princípio que sendo Alice Hensler filha da condessa d’Edla, pela sua própria confissão, o pai terá
existido na vida de Elise Hensler e com ela celebrado casamento, ou a filha terá sido resultado de relacionamento
que terá querido esquecer.
Permanecerá a dúvida quanto à paternidade de Alice, se a data do seu nascimento for posterior a 1855, e esta ter visto a luz do dia depois de 1860. Nesta hipótese, o rei D. Fernando II teria, eventualmente, algum protagonismo na história. A data oficial do casamento de D. Fernando com Elise Hensler é 10 de Junho de 1869. A filha desta, Alice Hensler viria a casar, em 1883, com o comandante Manuel de Azevedo Gomes, primeiro proprietário da Casa das Pedras, já descrita em capítulo próprio.
Alice Hensler, nascida em 25 de Dezembro de 1855, em França, casou em 30 de Setembro de 1883 com o comandante
Manuel de Azevedo Gomes, como anteriormente referido.
Deste casamento nasceram três filhos:
Alda Hensler de Azevedo Gomes, nascida em 14-8-1884, em Angra do Heroísmo e casada em 30-8-1908 com Ernesto de Campos Andrada; Mário de Azevedo Gomes, nascido em 22-12-1885 e casado em 7-8-1918 com Cristina Leopoldina
Sousa de Meneses Marcellin Chambica e Isabel Maria Hensler de Azevedo Gomes, nascida em 1-6-1889 e casada em 28-3-1912 com seu primo direito, Alberto de Mello Azevedo Gomes, filho do capitão-de-mar-e-guerra Amaro Justiniano de Azevedo Gomes (irmão do comandante Manuel de Azevedo Gomes). Amaro de Azevedo Gomes foi ministro da Marinha no 1.º Governo Provisório, republicano, presidido por Teófilo Braga, em 1910.
É numerosa a descendência destes três irmãos. No capítulo anterior, apresentámos o ramo do professor Mário de
Azevedo Gomes e a sua ligação à Casa das Pedras. Sua irmã Alda e o respectivo ramo descendente foram, durante
décadas, os moradores da casa da Quinta da Condessa d’Edla, um palacete mandado construir por Elise Hensler, em 1901, já viúva de D. Fernando, falecido no ano de 1885.
Elise Hensler, condessa d’Edla, tinha morada habitual num palacete da rua de Santa Marta em Lisboa, onde terá vivido
com sua filha, com o genro e com os netos, pelo menos até à data em que o comandante Manuel de Azevedo Gomes terminou a construcção da Casa das Pedras.
Falecido o comandante em 1907 e finalizada já a construcção da Casa da Quinta da Condessa, é conhecida a separação posterior do património habitacional respeitante a estas duas casas, acontecimentos logicamente ocorridos após o falecimento de Alice Hensler em 1941. A condessa falecera já no ano de 1929.
O professor Mário de Azevedo Gomes tomaria posse, por partilhas, da Casa das Pedras, juntando a esta uma determinada área da Quinta da Condessa. Deixou livre para seus irmãos a fruição da Casa da Quinta.
É assim que Alda Hensler, após o casamento com Ernesto de Campos Andrada em 1908, se instala na Quinta com os quatro filhos, sucessivamente nascidos, Maria Manuela (1909), António (1911), Eduardo (1913) e Maria Margarida (1915). Destes, António e Maria Margarida mantiveram esta Casa como sua morada ao longo de várias décadas, numa coabitação perfeita entre irmãos, cunhados e os filhos de ambos entretanto nascidos.
Esta Casa e a Quinta onde a mesma se inseria, manter-se-ia indivisa até ao século XXI, após o abandono e ruína da casa e o loteamento e urbanização do seu vasto terreno. A venda verificada viria a beneficiar a numerosa descendência de Alice Hensler.
Em 12 de Setembro de 1901 o arquitecto Nicola Bigaglia, que viria a projectar também a Casa das Pedras, assinou um requerimento solicitando à Câmara de Cascais a aprovação do projecto de uma casa, na propriedade da Condessa d’Edla, entre Cae Água e Parede. No mês de Outubro seguinte o mesmo seria aprovado.
Nota: D. Fernando II, viúvo de D. Maria II (1819-1853), foi rei-regente enquanto seu filho D. Pedro V (1837-1861) não atingiu
a maioridade.








António de Azevedo Gomes de Campos Andrada, filho de Alda Ensler de Azevedo Gomes e de Ernesto de Campos Andrada, nasceu em 5 de Julho de 1911 na freguesia de São Domingos de Rana a que pertencia, naquela data, o lugar de Parede. No dia 8 de Dezembro de 1949 casou com Marie Renée da Silveira Dargent, nascida na freguesia de Alcântara, em 27 de Julho de 1926, filha de Maria de Lourdes Pereira da Silveira e de George Preud’Homme Dargent, natural da Bélgica, “patriarca” de uma numerosa família desde longa data referenciada na Parede, com morada na rua José Carlos da Maia, sendo os seus membros figuras conhecidas nos meios desportivos da terra, com envolvimento em diversas actividades associativas e também na vida política.
Do casamento de António de Campos Andrada com Marie Renée Dargent, nasceram seis filhos e foi este ramo, descendente do comandante Manuel de Azevedo Gomes e de Alice Hensler, que ficou ligado por mais tempo à Casa e à Quinta da Condessa d’Edla, razão porque dele se faz uma mais alargada apresentação.
No entanto, já atrás referido, a irmã mais nova de António, Maria Margarida, nascida em 2-7-1915, casada com José Peile da Costa Pereira e os filhos deste casal, Maria Benedita e José Caetano, habitaram também e em simultâneo, esta Casa.

Marie Renée com os três filhos mais velhos, Maria José (1951), Luís Eduardo (1950) e Maria da Paz (1953)

Sentados:
Pedro (n.1967), Isabel Maria (n.1966), Maria José (n.1951) e Maria da Paz (n.1953)
Em pé:
Luís Eduardo (n.1950) e António (n.1955)
A progressiva degradação da Casa da Quinta da Condessa d’ Edla, habitada e mantida como símbolo da construção da Parede ao longo de dezenas de anos, originou a derrocada da sua cobertura e a deterioração progressiva do seu interior, a partir das últimas décadas do século passado.
Destino previsível, quando um património de considerável dimensão começa a exigir dispêndio de avultadas quantias para a sua conservação.
O fim do morgadio em famílias de muitos descendentes também não é facilitador de soluções e, em consequência, o passo final, concordante com o desejo dos herdeiros, foi a elaboração de um vasto projecto de urbanização, concretizado com nível elevado e onde é visível a tentativa de preservação da memória da “Casa”, em parte conseguida como se apresenta nas imagens seguintes.
Não sendo possível mantêr intacta a história original, que fique no mínimo a sua memória.

dos livros ” Parede a terra e a sua gente”
autor – José Pires de Lima


