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November 5, 2018
Praias da Parede
December 15, 2022“…Uma embarcação com cerca de sete metros de comprimento por dois metros de boca (largura máxima), três bancos atravessados, no meio dos quais um, com um orifício sustentando um pequeno mastro servindo de apoio a uma vela de pendão…”
“…Assim foi o meio de transporte que Manuel Maria de Oliveira Calheiros utilizou em 1907 para viajar de Setúbal até à Parede…”


Uma embarcação com cerca de sete metros de comprimento por dois metros de boca (largura máxima), três bancos atravessados, no meio dos quais um, com um orifício sustentando um pequeno mastro servindo de apoio a uma vela de pendão (1). No extremo deste banco (simples tábua) duas forquilhas onde se encaixavam dois remos.
Uma embarcação de fundo chato e quase nulo calado para facilidade de deslocação no leito dos rios, com as bicas de ré e da proa levantadas, sendo a da proa coberta para guarda dos apetrechos da faina, servindo ainda para “agasalho” em dias e noites de mau tempo.
Não é conhecida a embarcação original que aqui é referida mas não deveria diferir de outra qualquer com estas características, embora seja de admitir que o fundo suportaria uma quilha permitindo a sua utilização para além das águas calmas do rio, aventurando-se na pesca junto à costa oceânica.
Assim foi o meio de transporte que Manuel Maria de Oliveira Calheiros utilizou em 1907 para viajar de Setúbal até à Parede, trazendo no seu interior a mulher e três filhos, o mais novo destes prestes a completar dois anos de idade.
Decorreu um século desde o dia em que a família Calheiros empreendeu esta aventura.
Sem o mínimo de condições de segurança, sem medir os riscos que uma travessia de Setúbal às praias de Parede poderia provocar, com o sempre difícil dobrar do cabo Espichel e contando apenas com a sorte de um vento de feição e da resistência que Manuel Maria poderia esperar dos seus braços, quando agarrado aos remos da embarcação.
Uma travessia onde, seja de Verão ou de Inverno, com o mar inseguro quanto à ondulação, os ventos de Norte ou doutros quadrantes não facilitam um navegar sem altos riscos para uma embarcação tão frágil.
Inconsciência? Espírito de aventura?…


…Desespero por não poder proporcionar aos seus o sustento necessário?
Talvez esta última situação tenha sido a mola que lançou esta família na aventura, felizmente com sucesso, nesse longínquo ano de 1907.
Colaborando neste livro de memórias de Parede, uma neta de Manuel Maria, Rita de seu nome (como sua avó), relata assim os episódios que envolveram os seus Avós, seu Pai (José Maria, a criança prestes a completar os dois anos) e seus tios Henrique e Maria Ana:
No ano de 1907, Manuel Maria de Oliveira Calheiros e Maria Rita Manso, juntamente com os seus três filhos, Henrique, Maria Ana e José Maria chegaram à Parede. Ele, pescador de profissão, natural de Setúbal (assim como os seus filhos), ela natural de Santa Maria da Murtosa no distrito de Aveiro.
Como em Setúbal a pesca era fraca, o meu avô decidiu meter a família num barco à vela e remos e vir tentar a sua sorte na Parede.
Aqui, a pesca era bem melhor e eles decidiram por cá ficar. Como não tinham casa para morar, viviam no barco. As pessoas que viviam na Parede não os conheciam e como não sabiam os seus nomes começaram por identificá-los como as pessoas que viviam na Bateira. Com o passar do tempo, o meu pai começou a ser conhecido como o Zé da
Bateira e seus irmãos, como a Maria Ana e o Henrique da Bateira.
Anos mais tarde, os meus avós mudaram-se para uma casa junto do posto da Guarda-fiscal, onde nasceram os meus tios João, António e Justino (que faleceu com 11 anos).

Com a morte do meu avô, o meu pai e tios tiveram de ir trabalhar para ajudar em casa.
Todos constituíram família e tal como o meu avô, todos foram pescadores de profissão.
O meu pai costumava contar que quando começou a trabalhar na fiandeira, ia descalço e com uma bucha para comer que era dura como as rochas da praia.
Aos 22 anos de idade, o meu pai, juntamente com um grupo de amigos, fundou o Parede Futebol Clube (do qual ele era o sócio fundador N.º 5), apesar de ser um adepto “ferrenho” do Vitória de Setúbal, seu clube do coração.
Na pesca, o meu pai teve como camarada-ajudante, um amigo chamado Manuel da Silva, mais conhecido como o “Ti Manel Ganhar”, que era uma homem muito instruído para a época, que sabia ler e escrever muito bem.
A este homem, que eu não posso esquecer, também aqui a minha homenagem.
O meu pai foi ao longo de toda a sua vida, um homem de trabalho muito duro e que nunca faltou à sua família (filhos, irmãos e sobrinhos) e aos seus amigos.
Sempre nutriu um carinho muito especial por esta terra que o acolheu desde tenra idade (tinha 2 anos quando para cá veio) e a praia da Parede era (como costumava dizer), a sua segunda casa.
Faleceu no dia 15 de Fevereiro de 1994, aos 88 anos e até dois dias antes da sua morte, foi à praia e ao café do seu Parede Futebol Clube para se despedir de tudo e de todos os que lhe foram queridos. No seu funeral muitos foram os amigos e familiares que lhe prestaram a sua homenagem.




meu primo Manuel da Bateira (que assim realizou o seu sonho de prestar uma homenagem à, também sua, praia da Parede…”

dos livros ” Parede a terra e a sua gente”
autor – José Pires de Lima


