
Manuel dos Reis
December 15, 2022
Domingos José de Moraes Júnior
December 15, 2022Nasceu em Santiago do Cacém em 15 de Outubro de 1911, filho de Carlos Augusto da Fonseca e de Maria Silvina Lopes. Viveu neste concelho do litoral Alentejano, do distrito de Setúbal, até completar a instrução primária. Prosseguiu os seus estudos em Lisboa, no colégio Vasco da Gama e no liceu Camões, tendo ainda frequentado a escola Lusitânia e a escola de Belas Artes.
Assim começa a história de Manuel Lopes da Fonseca, um paredense de adopção, que ao longo da sua vida de 82 anos distribuiu imensa simpatia e amizade, marcando presença na roda de amigos onde foi figura central, escutado sempre com o maior interesse e curiosidade, num aproveitamento das suas enormes qualidades de contador de histórias e ele também protagonista de algumas, curiosas e reveladores de um espírito por vezes demasiado descontraído e imprevisível.
Conta-se que certa noite, sua mulher lhe pedira para ir a uma farmácia comprar um medicamento que ajudasse a baixar a febre de seu filho pequeno, José Carlos. Seriam dez horas da noite e Manuel da Fonseca saiu de imediato para cumprimento do pedido. O tempo, entretanto, foi passando e o seu regresso a casa fez-se já a madrugada ia alta porque no caminho, encontrando um grupo de amigos, com eles se entreteve em franca cavaqueira.
Do medicamento nem sombra, que o seu pensamento andava por longe quando surgiam outras oportunidades ou “imprevistos”.

no dia 11 de Março de 1993

São mais ou menos de 1925 os primeiros escritos que uma sua tia encontrou numa gaveta e que mostrou ao Director do jornal de Santiago do Cacém, “O Periquito”, onde apareceram publicados. Eram contos e poesias.
A sua vida foi marcada por uma permanente irrequietude, constante na vontade de escrever mas indiferente
ao sucesso que a vida lhe pudesse proporcionar.
Antes de se dedicar à escrita por vocação, trabalhou numa drogaria e, no seu dizer: -“fiz disso cavalo de batalha;
saía da loja de monóculo e gabardina branca de grande senhor, porque me considerava importante vendedor de petróleo”.
Foi também publicitário, ganhando bem ainda que sem emprego fixo. Mas logo alguém lhe oferecia trabalho.
Foi colaborador da revista “O Pensamento”, uma publicação socialista iniciada em 1931, com ligação ao
movimento operário da I República.
Também escreveu para as revistas “Vértice” e “Sol Nascente”, órgãos que se reclamavam de cultura e arte, ligados ao neo-realismo, onde colaboraram, entre outros, Joaquim Namorado, Carlos Oliveira, João José Cochofel, Mário
Dionísio, Alves Redol, Manuel da Fonseca e Fernando Lopes Graça, na 1.ª e, além destes, também Fernando Namora, Armando Bacelar, Jorge Mendonça Torres, Álvaro Cunhal e António Ramos de Almeida, na 2.ª. “Sol Nascente” foi nos anos 30, uma publicação quinzenal e veículo de propaganda estalinista. Em 1940 viria a ser proibida.
Para a revista “Seara Nova”, fundada por Raúl Proença em 1921 também Manuel da Fonseca escreveu, junto com um grupo de homens de letras como Jaime Cortesão, António Sérgio, Raúl Brandão, Aquilino Ribeiro, Augusto Casimiro, Jorge de Sena e José Gomes Ferreira.
“Foram os meus amigos que se juntaram para fazer sair o livro. Um dia vi no café Portugal, no Rossio, os volumes e fiquei fora de mim. Foi o Alves Redol, o Mário Dionísio e outros. Juntaram oitocentos e cinquenta escudos. O livro custava dez mil réis, com papel e tudo, tipografia, um espanto. O primeiro livro tem sempre aspectos muito bons. Eu fugi, fiquei fora do sitio, fui dar uma volta. Andei vários dias pela noite, por vários sítios com amigos que ninguém conhecia, que eu tinha várias áreas de Lisboa com amigos”.
Ainda com poemas, seguiu-se em 1942 “Planície” e um livro de contos com o título de “Aldeia Nova”. Em 1958 publicou “Poemas Completos” e “Poemas Dispersos”.
Seguindo os movimentos da época, expressando com maior ou menor entusiasmo a sua adesão às sucessivas tentativas frustradas para derrubar o regime instituído em 1926, personalizado na figura de Salazar, Manuel da Fonseca, por alturas de 1941, fez parte dum grupo chamado “Novo Cancioneiro”, constituído por jovens poetas seguidores do neorealismo e que nas letras das suas poesias, de carácter social, demonstravam a sua
oposição política.
O CITI – Centro de Investigação para Tecnologias Interactivas da Faculdade de Ciências Sociais e Humanas da Universidade Nova de Lisboa, na sua página de circulação interactiva, explica que:
“Não se pode considerar o Novo Cancioneiro como movimento ou escola literária, uma vez que não
surgiu qualquer programa a anteceder a publicação dos 10 volumes da colecção, o que permitiu uma
certa liberdade de estilo a estes poetas (que, no entanto, sofriam também influências de antecessores
como Álvaro de Campos e Cesário Verde). Manuel da Fonseca, João José Cochofel e Políbio dos
Santos foram vozes poéticas do Novo Cancioneiro que não demonstraram nos seus poemas
voluntariedade ou rebusca.
Publicaram-se sucessivamente “Terra” (Fernando Namora), “Poemas” (Mário Dionísio), “Sol de
Agosto” (João José Cochofel), “Aviso à Navegação” (Joaquim Namorado), “Os poemas de Álvaro
Feijó” (pelo próprio), “Planície” (Manuel da Fonseca) – todos de 1941 – e “Turismo” (Carlos de
Oliveira”), “Passagem de Nível” (Sidónio Muralha), “Ilha de Santo Nome” (Francisco José
Tenreiro) – de 1942 e “A Voz que escuta” (Políbio Gomes dos Santos).
O Novo Cancioneiro falhou como grupo, e os poetas acabaram por se dispersar por outras formas de
literatura (Fernando Namora e Manuel da Fonseca para a prosa de ficção, Carlos de Oliveira para
o romance, Mário Dionísio para o ensaio e crítica de arte), tendo a sua influência sido quase nula
nos movimentos subsequentes.”
Manuel da Fonseca publica ainda:
Em 1943 o romance “Cerromaior”,
em 1951 “O Fogo e as Cinzas” (contos),
em 1958 “Seara de Vento” (romance),
em 1968 “Um Anjo no Trapézio” (contos),
em 1973 “Tempo de Solidão” (contos) e
em 1989 as “Crónicas do Algarve”.
O primeiro conto, O Largo, que aqui se reproduz integralmente, é um texto que reflecte a
sensibilidade de Manuel da Fonseca no tratamento das coisas e dos personagens da sua
terra, e que também se poderá aplicar aos Largos de convívio de muitas outras terras. A
Parede também pode ser incluída na lista de terras com o seu Largo.
O LARGO
«Antigamente, o Largo era o centro do mundo. Hoje é apenas um cruzamento de estradas, com casas em
volta e uma rua que sobe para a Vila. O vento dá nas faias e a ramaria farfalha num suave gemido; o pó
redemoinha e cai sobre o chão deserto. Ninguém. A vida mudou-se para o outro lado da Vila.
O comboio matou o Largo. Sob o rodado de ferro morreram homens que eu supunha eternos. O senhor
Palma Branco, alto, seco, rodeado de respeito; os três irmãos Montenegro, espadaúdos e graves; Badina,
fraco e repontão; o Estroina, bêbado, trocando as pernas, de navalha em punho; o Má Raça, rangendo os
dentes, sempre enraivecido contra tudo e todos. O lavrador de Alba Grande, plantado ao meio do Largo
com a sua serena valentia; mestre Sobral; Ui Cotovio, rufião de caracol sobre a testa. O Acácio, o bebedola
do Acácio, tirando retratos, curvado debaixo do grande pano preto. E, lá ao cimo da rua, esgalgado, um
homem que eu nunca soube quem era, e que aparecia subitamente à esquina olhando cheio de espanto
para o Largo.
Nesse tempo, as faias agitavam-se, viçosas. Acenavam rudemente os braços e eram parte de todos os
grandes acontecimentos. À sua sombra, os palhaços faziam habilidades e dançavam ursos selvagens. À
sua sombra, batiam-se os valentes; junto do tronco de uma faia caiu morto António Valmorim, temido
pelos homens e amado pelas mulheres.
Era o centro da Vila. Os viajantes apeavam-se da diligência e contavam novidades. Era através do
Largo que o povo comunicava com o mundo. Também, à falta de notícias, era ali que se inventava alguma coisa que se parecesse com a verdade. O tempo passava, e essa qualquer coisa inventada vinha a ser verdade. Nada a destruía:
tinha vindo do Largo.
Assim, o Largo era o centro do mundo. Quem lá dominasse, dominava toda a Vila. Os mais inteligentes e sabedores desciam ao Largo e daí instruíam a Vila. Os valentes erguiam-se no meio do Largo e desafiavam a Vila, dobravam-na à sua vontade. Os bêbados riam-se da Vila, cambaleando, estavam-se nas tintas para todo o mundo, quem quisesse que se ralasse, queriam lá saber – cambaleavam e caíam de borco. Caíam ansiados de tristeza no pó branco do Largo. Era o lugar onde os homens se sentiam grandes em tudo que a vida dava, quer fosse a valentia ou a
inteligência ou a tristeza. Os senhores da Vila desciam ao Largo e falavam de igual para igual com os mestres alvanéis, os mestres ferreiros. E até com os donos do comércio, com os camponeses, com os empregados da Câmara. Até, de igual para igual, com os malteses, os misteriosos e arrogantes vagabundos. Era aí o lugar dos homens, sem distinção de classes. Desses homens antigos que nunca se descobriam diante de ninguém e apenas tiravam o chapéu para deitar-se.
Também era lá a melhor escola das crianças. Aí aprendiam as artes ouvindo os mestres artífices, olhando
os seus gestos graves. Ou aprendiam a ser valentes, ou bêbados, ou vagabundos. Aprendiam qualquer
coisa e tudo era vida. O Largo estava cheio de vida, de valentias, de tragédias. Estava cheio de grandes
rasgos de inteligência. E era certo que a criança que aprendesse tudo isto vinha a ser poeta, e entristecia
por não ficar sempre criança a aprender a vida – a grande e misteriosa vida do Largo.
A casa era para as mulheres. No fundo das casas, escondidas da rua, elas penteavam as tranças, compridas como caudas de cavalos; trabalhavam na sombra dos quintais, sob as parreiras; faziam a comida e as camas – viviam apenas para os homens. E esperavam-nos submissas.
Não podiam sair sozinhas à rua porque eram mulheres. Um homem da família acompanhava-as sempre.
Iam visitar as amigas e os homens deixavam-nas à porta e entravam numa loja que ficasse perto, à espera
que saíssem para as levarem para casa. Iam à missa e os homens não passavam do adro. Eles não
entravam em casas onde fossem obrigados a tirar o chapéu. Eram homens que, de qualquer modo,
dominavam no Largo.
Veio o comboio e mudou a Vila. As lojas encheram-se de utensílios que, antes, apenas se vendiam nos
ferreiros e nos carpinteiros. O comércio desenvolveu-se, construiu-se uma fábrica. As oficinas faliram; os
mestres ferreiros desceram a operários, os alvanéis passaram a chamar-se pedreiros e também se
transformaram em operários. Apareceu a Guarda, substituiu os pachorrentos cabos de paz e prendeu os
valentes. As mulheres cortaram os cabelos, pintaram a boca e saem sozinhas, os senhores tiram agora os
chapéus uns aos outros, fazem grandes vénias e apertam-se as mãos a toda a hora. Vão à missa com as
mulheres, passam as tardes no Clube e já não descem ao Largo. Apenas os bêbados e os malteses se
demoram por lá nas tardes de Domingo.
Hoje, as notícias chegam no mesmo dia, vindas de todas as partes do mundo. Ouvem-se em todas as
vendas e nos numerosos cafés que abriram na Vila. As telefonias gritam tudo que aparece à superfície da
terra e das águas, no fundo das minas e dos oceanos. O mundo está em toda a parte, tornou-se pequeno
e íntimo para todos. Alguma coisa que aconteça em qualquer região todos a sabem imediatamente, e
pensam sobre ela e tomam partido. Ninguém já desconhece o que vai pelo mundo. E alguma coisa está
acontecendo na terra, alguma coisa de terrível e desejado está acontecendo em toda a parte. Ninguém fica
de fora, todos estão interessados. A Vila dividiu-se. Cada café tem a sua clientela própria, segundo a
condição de vida. O Largo que era de todos, e onde apenas se sabia aquilo que a alguns interessava que
se soubesse, morreu. Os homens separaram-se de acordo com os interesses e as necessidades. Ouvem as
telefonias, lêem os jornais e discutem. E, cada dia mais, sentem que alguma coisa está acontecendo.
Também as crianças se dividiram: brincam em comum apenas as da mesma condição; param às portas
dos cafés que os pais ou os irmãos mais velhos frequentam. O Largo agora, é todo o mundo. É lá que estão
os homens, as mulheres e as crianças. No outro Largo, só os bêbados e os madraços dos malteses – e
aqueles que não querem acreditar que tudo mudou. O certo é que ninguém já liga importância a esta
gente e a este Largo.
As grandes faias ainda marginam o Largo como antigamente e, à sua sombra, João Gadunha ainda teima
em continuar a tradição. Mas nada é já como era. Todos o troçam e se afastam. João Gadunha, o bêbado, fala de Lisboa, onde nunca foi. Tudo nele, os gestos e o modo solene de falar, é uma imitação mal pronta dos homens que ouviu quando novo.
Grande cidade, Lisboa! – diz ele – aquilo é gente e mais gente, ruas cheias de pessoal, como numa feira!
Gadunha supõe que em Lisboa ainda há largos e homens como ele conheceu, ali, naquele Largo marginado
pelas velhas faias. A sua voz ressoa, animada:
Querem vocês saber? Uma tarde, estava eu no Largo do Rossio…
No Largo do Rossio?
Sim, rapaz! – afirma Gadunha erguendo a cabeça, cheio de importância – estava eu no Largo do Rossio
a ver o movimento. Vá de passar pessoal para baixo, famílias para cima, um mundo de gente, e eu a ver.
Nisto, dou com um tipo a olhar-me de esguelha. Cá está um larápio, pensei eu. Ora se era!… Veio-se
chegando, assim como quem não quer a coisa, e meteu-me a mão por debaixo da jaqueta. Mas eu já estava
à espera!… Salto para o lado e, zás, atiro-lhe uma punhada nos queixos: o tipo foi de gangão, bateu com
a cabeça num eucalipto e caiu sem sentidos!
Uma gargalhada acolhe as últimas palavras do Gadunha.
Um eucalipto!?
Apenas por um pormenor, estragou uma tão bela história. Fosse antigamente, e todos ouviriam calados. Agora, sabem tudo e riem-se. Mas Gadunha teima. Diz que sim, que já esteve no Largo do Rossio, lá em Lisboa.
Vocês já viram um largo sem eucaliptos ou faias ou outra árvore qualquer? Pergunta ele desnorteado.
Todos se afastam, rindo.
João Gadunha ficou sòzinho e triste. Os olhos arrazam-se-lhe de água, a bebedeira dá-lhe para chorar.
Agarra-se às faias, abraça-as, e fala-lhes carinhosamente. Aperta-as contra o peito, como se tentasse
abarcar o passado. E as suas lágrimas molham o tronco carunchoso das faias.
Vai morrendo assim o Largo. Aos Domingos, é ainda maior a dor do Largo moribundo. Vão todos para
os cafés, para o cinema ou para o campo. O Largo fica deserto sob a ramaria das faias silenciosas.
É nesses dias, pelo fim da tarde, que o velho Ranito sai da venda rangendo os dentes. Outrora foi mestre
artífice; era importante e respeitado. Hoje, é tão pobre e sem préstimo que nem sabe ao certo o número de
filhos. Apenas sabe embebedar-se. Pequeno e fraco, o vinho transforma-o. Entesa-se, ergue o cacete e, sem
dobrar os joelhos, apenas com um golpe de pés, pula para o ar e dá três cacetadas no pó do Largo antes
de tocar de novo com os pés no chão. Ergue a cabeça e grita, estonteado:
Se há aí algum valente, que salte para aqui!
Mas já não há nenhum valente no Largo, já não há ninguém no Largo. Ranito olha em volta com o olhar
espantado.
A vista turva-se-lhe, range os dentes:
Ah vida, vida!…
Volteia o cacete sobre a cabeça, vai de roda, feroz, pelo Largo ermo de vida, atirando cacetadas contra o
chão. Vai, de cinta solta rojando, ágil e ridículo, a desafiar homens que já morreram.
Até que se cansa naquela luta desigual. O cacete despega-se-lhe das mãos e ele fica lasso, desequilibrado.
Aos tropeções, pende para a frente e cai, tem que cair, o Largo já morreu, ele não quer mas tem que cair.
Pesado de bebedeira e de desgraça, cai vencido.
Uma nuvem de poeira ergue-se; depois, tomba vagarosa e triste. Tomba sobre o Ranito esfarrapado e tapa-o.
Ele já não pode ver que o Largo é um mundo fora daquele círculo de faias ressequidas. Esse vasto mundo
onde qualquer coisa, terrível e desejada, está acontecendo.»
dos livros ” Parede a terra e a sua gente”
autor – José Pires de Lima


